Sutil e Espess0

Separarás a Terra do Fogo, o sutil do denso, suavemente e com grande perícia.

Hermes Trismegisto

Um ponto interessante do sutil é sua natureza contraditória. A sutileza sempre exige certo esforço. O sutil nasce da técnica e do artifício; sua criação é regrada, envolve não ter exageros, trazer complexidade na simplicidade. Por isso há nele um aspecto antinatural. Porém, o sutil é dotado de uma aparente naturalidade. É nesse sentido que se diz que “as redes sociais são realizações sutis da magia”, exatamente por promoverem grandes feitos que, contudo, mal se percebem. O sutil está, por isso, ligado ao que há de mais furtivo e sorrateiro, ao oculto e ao esotérico, e por isso carrega em si algo de serpentino e até mesmo iniciático. Há mais: podemos encontrar algo de genial e louco dentro dele, porque só pode ser visto por aquele que vê aquilo que os demais não veem, pelo especialista: o sutil só pode ser encontrado por uma mente atenta. Se sempre nos lembrarmos que o sutil não só é algo genuíno e natural, mas por vezes algo artificial e técnico, não será difícil entender que o sutil é tanto o portador de uma autenticidade quase sagrada quanto o maior inimigo dela. Existe algo de espesso dentro do próprio sutil.

É necessário saber que a guerra é comum [universal] e que a justiça é discórdia, e que todas as coisas vêm a ser segundo discórdia e necessidade

— Heráclito

Ao voltarmos nossa atenção para as batalhas, torna-se evidente a união presente na guerra: os exércitos devem encontrar-se; um não pode atacar o outro sem que haja um encontro, frente a frente, em união. E, como em tudo há guerra, o sutil e o espesso estão presentes em todas as coisas. Nunca se viu, nem se verá, sequer uma vez, algo completamente sutil, sem nenhuma espessura. O contrário também é verdadeiro. Portanto, a separação não é total, mas ocorre exatamente como ordena Hermes: uma separação sutil entre o sutil e o espesso.

Isso ocorre porque, se a guerra une, a justiça divide.

Pois vim para ser motivo de discórdia entre o homem e seu pai; entre a filha e sua mãe; e entre a nora e sua sogra. Assim, os inimigos do homem serão os da sua própria família.

— São Mateus

Afinal, não é a justiça a separação do joio e do trigo? Mas tudo aquilo que separa traz guerra, e assim tudo volta a se comunicar. Assim, Cristo — o Logos — é tanto o princípio de individuação como o de união dos entes, mais ou menos como a matéria, que divide por individuar, mas os une por ser uma só matéria e por colocar todos esses entes em comunicação1.

Encontramos no sutil algo de mágico, embora não devamos confundi-lo com o espiritual. Ironicamente, o sutil simboliza o espiritual e, de certa forma, é o próprio espiritual manifesto de modo grosseiro e espesso! É assim, por exemplo, no padre ortodoxo Seraphim Rose, qual afirma que os anjos são compostos de matéria, mas de uma matéria sutil.

Para que se possa ter uma dimensão clara da importância de se ter o domínio dos dois mundos, apresentarei alguns exemplos de ‘grosseria’ e de ‘leveza’:

O primeiro exemplo que indicarei é o dos templos católicos e suas formas. Uma catedral sempre possui uma estrutura quadrangular, mas nunca circular. A princípio, pode-se pensar que essa escolha se deu apenas por um motivo estético, o que não deixa de ser parcialmente verdade. No entanto, essa não é a única razão; há, por trás dessa forma, uma verdade sutil que se revela a nós.

O quadrado é um símbolo natural e autêntico da estabilidade. Diferente do círculo, um quadrado nunca tende a rolar quando colocado sobre uma superfície levemente inclinada; ele permanece fixo. Eis, então, a verdade sutil que se desvela: a estabilidade do quadrado, sua fixidez, sua imobilidade — a autêntica ‘Ogdóade‘. O círculo, em contrapartida, representa a instabilidade, o constante movimento, o ‘devir‘, o mundo sublunar, o mundo material. Basta a menor influência sobre o círculo para que sua tendência natural seja o rolamento. O mesmo ocorre com a matéria, que, ao ser influenciada, sofre transformações.

Essas formas já nos revelam suas verdades microcósmicas — “verdades espessas” — assim como suas verdades sutis, macrocósmicas. Cabe-nos, após discerni-las, uni-las ao todo cósmico. No caso das catedrais, ao relacionarmos essas verdades previamente conhecidas, podemos chegar às verdades sutis nelas contidas.

Já se ouviu muitas vezes que as igrejas são o ‘habitat do Logos‘ na Terra. Mas poderá o Logos habitar na instabilidade? Evidentemente, não. “Quem pode tirar o puro do impuro? Ninguém!” (Jó 14:4). As catedrais, por suas formas, manifestam o estável no instável, assim como a alma e o corpo. Suas estruturas quadrangulares revelam-nos como o Logos habita no mundo material e mostram, de forma mais evidente, que é dentro das catedrais que se dá a presença real do Logos, de Seu sacrifício e de Sua união conosco após a Eucaristia.

O segundo exemplo que posso oferecer diz respeito ao número 7. Temos, como verdade espessa: o 7 é a soma de pares complementares: 1 + 6, 2 + 5, 3 + 4, etc. No entanto, ao adentrarmos as verdades sutis, percebemos que a verdade espessa se torna uma unidade em um cosmo de verdades.

Comecemos pela astrologia tradicional, especificamente nos sete astros: Sol, Lua, Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno. Cada um deles representa aspectos da hierarquia cósmica e da casa divina. Além disso, na alquimia, o número 7 revela os processos alquímicos: desde o trabalho menor, que se dedica à purificação e segue a ordem ascendente de Saturno, Júpiter e Lua, até o trabalho maior, que corresponde à “adição de qualidades essenciais” e tem como astros regentes Vênus, Marte e Sol. Por fim, ao término da obra alquímica, encontramos Mercúrio, que simboliza a realização da «Magnum Opus», o ápice da grande obra.

Essa correspondência não se limita ao campo alquímico, mas se estende ao próprio homem. Como dizem as Sagradas Escrituras em Gênesis 1:26: “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança.” Assim como temos, em nossos corpos, sete orifícios principais, há sete planetas essenciais e sete hierarquias antes da oitava, o qual é a casa do Logos. Convém retornar à Tábua de Esmeralda: “O que está embaixo é como o que está em cima e o que está em cima é como o que está embaixo, para realizar os milagres de uma única coisa2.

É por essas razões que os «nobres» andam ao lado do roxo, expressando sutilmente sua soberania, já que a púrpura diz respeito da união do azul — qual representa sutilmente o polo passivo, ou seja, aquele que recebe — com o vermelho — o polo ativo, aquele que sempre dá, que age. É muito necessário que haja atenção para receber as verdades em sua forma sutil, e da busca ativa (cor vermelha) do iniciado para descobrir as verdades sutis (apesar que é possível receber o sutil diretamente de Deus por meio de uma iluminação passiva, que, de acordo com René Guénon, ocorre somente no Cristianismo, e da qual recebe o nome de misticismo), incentivando o reinado do intelecto em detrimento da vontade; até porque adoraríamos que tudo fosse entregue rapidamente e sem esforço para nossa mente, mas esse esforço é exigido justamente pelas sutilezas. É o sutil que, de fato, separa o ignorante do sábio.

O que tem nome, eis a mãe de dez mil coisas.”

Dàodé Jīng, Lǎozǐ

Ora, Lǎozǐ refere-se ao Céu e à Terra, aponta Héshàng Gōng. Céu e Terra têm formas e posição, têm Yīn e Yáng, têm rigidez (gang) e maciez (rou). Ademais, gang (dureza) é um atributo de Yáng, enquanto rou (maciez) é atributo de Yin. Parece haver, em Lǎozǐ, certa precedência hierárquica do Yin sobre o Yang. “Concentra tua energia vital até alcançar um estado de delicadeza”.

Algumas tradições — quais não asseguramos tão certamente como autênticas — equiparam Yang Jian (Espaço Yang, o domínio ativo) ao mundo material e Yin Jian (Espaço Yin, o domínio passivo) ao espiritual. Mas como assemelhar Yang à matéria, sendo ele tão análogo a Puruṣa, ou ao conceito de forma (ou, mais propriamente, ao de essência) dos escolásticos? Isso não seria explicável somente na perspectiva aqui apresentada, onde há identidade entre o ativo e o espesso — e, por consequência, à matéria?

Notas

  1. Não é necessário apontar que, neste campo, a matéria é visualizada como algo sutil. ↩︎
  2. Quod est inferius est sicut quod est superius, et quod est superius est sicut quod est inferius, ad perpetranda miracula rei unius.“ ↩︎

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