“O nome que pode ser nomeado não é o nome eterno.”
— Lǎozǐ
Em “O Tesouro da Natureza da Mente (Chöying Dzöd)”, o nyingma Longchenpa reforça o primeiro Selo do Dharma dizendo que tudo é transitório e ilusório, como um sonho, uma miragem, uma bolha de espuma. O bodisatva Shantideva ensina que esses seres que vagueiam são como uma bananeira. Se olharmos uma bananeira, ela parece sólida, mas, quando descascamos as camadas do seu tronco, ele é oco. Embora as coisas pareçam ter existência própria, quando investigadas, não se encontra base alguma. A mente que as percebe, igualmente, carece de essência. Reconhecer essa vacuidade é o início da libertação.
É péssimo não se identificar, ao menos aqui, com Longchenpa. Antes, são iludidos; creem veementemente na substancialidade e individualidade das coisas múltiplas — particularmente aquelas que dão prazer1 —, assim como em sua eternidade. Porém, como as coisas, subjugadas pelo tempo, são dotadas de eternalidade própria? Eis, então, o aspecto ilusório de Māyā atuando sobre os iludidos.
Mas o que exatamente queremos dizer com “Ilusão”? Respondemos que é precisamente aquilo descrito no Alcorão, particularmente na Surata 57 (Al-Hadid), versículo 20:
“Sabei que a vida terrena é tão-somente jogo e diversão, veleidades, mútua vanglória e rivalidade, com respeito à multiplicação de bens e filhos; é como a chuva, que compraz aos cultivadores, por vivificar a plantação; logo, completa-se o seu crescimento e a verás amarelada e transformada em feno.”
Em outras palavras, dizer para si que se viu algo cuja visão jamais ocorreu, e a prova não passa de vã pretensão. Supor que neste mundo haja algo permanente, imóvel, verdadeiramente distinto e definido — e, ainda assim, duradouro — é pura ilusão. Crer em qualquer coisa que não seja Deus é alimentar um artifício da mente.
Quando o pecador — aquele que, em solidão, trai sua própria castidade — sucumbe à concupiscência, e enfim o ato se completa, sucede-lhe, ao findar o prazer, um súbito despertar: percebe que aqueles deleites foram fugazes, o abandonaram com estranha rapidez e, acima de tudo, violaram a vontade do Pai; não lhe prestou obediência. E então, como ensinou o rei Salomão em Provérbios (1:30‑31):
“… comerão do fruto dos seus erros e se fartarão de suas próprias maquinações, porque a apostásia dos tolos os mata, e o desleixo dos insensatos os perde…”
É uma via um tanto bruta para alcançar certa quebra da Ilusão, ou seja, de Māyā; ao menos seu aspécto mais grosseiro é, aqui, destruído. Ao ter a “bolha” furada, o pecador consegue chegar, em certo grau, à conclusão de que nada deste mundo — e com este mundo queremos dizer tudo que é definido, delimitado, determinado — é eterno.
Porém, no caso dos sábios, por terem o discernimento dos mistérios menores e — como anteriormente tivemos a oportunidade de abordar — do mundo sutil, para eles nada disso é um mistério, mas, antes, uma verdade que nos foi revelada pela Tradição, ou seja, por meios supra-humanos.
Mas, antes de prosseguir, vale a pena nos aprofundarmos também no Māyā sutil, pois o grosseiro já abordamos acima.
O Māyā sutil é a cisão entre o observador e o observado, entre o espetáculo e a plateia. É a ilusão que sustenta a dualidade, fazendo parecer que há separação onde só existe unidade. Este Māyā diz respeito ao não-dualismo do Advaita Vedānta, ou seja, à visão da realidade como sendo “é, é, é“, e não apenas do “É”. Mas como? Ora, poderia haver espetáculo sem espectador? Ou ainda, qualquer um dos dois sem um teatro? Evidentemente, não. Então, por que fazer a separação entre o eu e o outro? Não faz sentido. É a respeito disso que este Māyā ilude: a respeito da dualidade.
Essa fragmentação do real nos leva a esquecer que, no fundo, tudo é o É — o puro Ser — como ensina o Advaita Vedānta: Brahman é a única realidade; o mundo é ilusão; o Eu individual não é senão Brahman. Sendo a realidade o espetáculo, o eu o espectador, e o Brahman o teatro — ou seja, Aquele que abarca tudo, Aquele que É.
Mestre Eckhart nos confirma isto, dizendo: “O olho com que vejo Deus é o mesmo olho com que Deus me vê.“, assim como Ibn Arabi: “É o Uno mesmo quem fala e quem escuta.”
Essa verdade também é expressa por Heráclito, no Fragmento 50, de uma forma um pouco mais profunda e que “toca na ferida” da ilusão sutil, dizendo: “Depois de teres ouvido, não a mim, mas ao Logos, é sábio concordar que tudo é Um.”
Heráclito diz isto no sentido de: quem o ouve pensando que foi ele quem disse tal verdade não poderia estar mais enganado pelo Māyā; mas, antes, foi o Logos quem disse por intermédio de Heráclito. Qualquer verdade dita neste mundo não foi dita pelos lábios de ninguém, mas, antes, foi Aquele que É desde o princípio.
E, por fim, se restarem dúvidas, as Sagradas Escrituras nos confirmam este ponto, mais propriamente o Santo Apóstolo Mateus, capítulo dez, versículo vinte, dizendo:
“Pois não sois vós que falais, mas o Espírito de vosso Pai é que fala em vós.”
Após termos discernido sobre Māyā e a ilusão que nos é causada, convém falarmos sobre a roda cósmica que, com suas direções espaciais, não poderia senão simbolizar o mundo criado, a impermanência à qual ele se encontra submetido e o seu centro. Ora, a roda, como símbolo cósmico, nos revela — por meio de sua forma — uma verdade do Uno que não poderia, senão por esse símbolo, ser conhecida por nós. Ela diz respeito à constante mudança à qual tudo o que é criado está sujeito. O que pode se fixar, sem mudanças da roda, mas antes por mudanças diretas feitas pelo Caminho, são os seres supra-físicos e as essências das coisas, como os anjos e o vinho que foi transformado em água por Cristo. Ela — que está sendo aqui utilizada em sua forma mais “hindu” — possui todas as direções espaciais, simbolizando que, em todas as direções, lugares e cantos do cosmo, tudo está sujeito a mudanças.
Igualmente — e mais profundamente — o símbolo das direções diz respeito ao fato de que todas elas emanam e saem do centro, ou seja, d’Aquele que está no centro dela, que gira a roda: o Logos.
É o Uno. Como diz Cristo, em Apocalipse 22, versículo 13: “Eu sou o Alfa e o Ômega, o Primeiro e o Último, o Princípio e o Fim.” Ou seja, o Logos é Aquele que, ao mesmo tempo, dá o dom da vida, de participar de Seus mistérios, de contemplá-Lo, etc.; mas, igualmente, é Aquele que retira a vida, que a cessa, que condena os ímpios. É o Homem Verde, aquele que, se sua boca sai as plantações e, ao mesmo tempo, entram nela, da Igreja de St. Mary e St. David, em Kilpeck; é a bela e terrível face do Kâla-Mukha hindu.
E, então, sabendo desses princípios — da impermanência à qual o mundo se encontra submetido e da verdade de que tudo somente é permanente quando retorna ao Pai —, o sábio ou o leigo deve ter o discernimento de ver tudo como é, sem ilusões.
“Eu sou Aquele que É.” (Êxodo 3:14)
Parece ser possível obter o conhecimento de que tudo do mundo está sujeito ao jugo de Saturno. Deve-se fazer um trabalho alquímico a fim de atingir o Magnus Opus, ou seja, sair da prisão saturnina e ir em direção à libertação do ativo e do passivo, do Sol e da Lua.
As Sagradas Escrituras também nos confirmam o mesmo. Ou seja, para que se possa ter o conhecimento disso, é necessário estar “limpo”, pois, quando Moisés desejava ver a face de Deus no monte, Deus lhe disse:
“Não poderás ver o meu rosto, porque ninguém pode ver-me e continuar vivo. […] Verás apenas as minhas costas.” (Êxodo 33:20-23)
Aqui, a linguagem simbólica aponta para a mesma verdade esotérica: ver o Rosto de Deus é morrer — mas morrer no sentido alquímico. É a morte do homem ao velho mundo, às ilusões da identidade separada, e o renascimento da alma no estado adâmico original, em que todas as coisas são vistas como Um, antes da queda, antes da divisão. Ver o Rosto de Deus é dissolver-se n’Ele. É o fim da dualidade.
Mas como poderíamos chegar a este estado adâmico? Convém citar um trecho do livro de Luc Benoist, Esoterismo:
“Dios creó el mundo por una oración. Todo lo que vive ha sido creado por el Espíritu de Dios y vive por la oración de Dios. Él nos ha dado el espíritu de vida de la misma manera: por una oración. Y cuando la oración de Dios y la oración del hombre se encuentran, el hombre se vuelve un ser vivo.”
Deus criou o mundo, como diz Luc, através — ou por intermédio de — uma oração. O universo surgiu como um sopro divino, uma luz cósmica vibrátil — e essa luz é a Vida. Assim, a criação é em si uma oração contínua, uma emanação do Ser. A nós, Ele conferiu o espírito de vida da mesma maneira: por meio da oração. A oração humana, então, é um eco retroativo dessa vibração primordial — uma resposta do ser à origem divina.
A oração e a iluminação são inseparáveis. Orar é, ao mesmo tempo, ser iluminado. Não há iluminação sem oração, porque orar é entrar em sintonia com a fonte da Luz. Os santos nos são prova viva disso. Foram homens e mulheres que, por orar incessantemente, tornaram-se irradiadores da luz divina. Suas vidas são faróis acesos no oceano da tristeza e da ignorância, confirmando que existem a Bondade, a Unidade, a Beleza e o Amor. São como pérolas que brilham sob a luz divina mesmo no meio do lodo do rio.
A oração, assim compreendida, é o destruidor da dualidade. Não é o homem que ora por si só — é o próprio Pai que ora nele. Este é um dos mistérios centrais da experiência espiritual: é o Uno quem fala e quem escuta, como diz Ibn ‘Arabi. A oração dissolve a ilusão da separação; nela, o orante e o ouvinte são um só.
Somente poderíamos ter tudo quando elevarmos a eternidade, como diz Cristo no sermão da montanha em São Mateus, capítulo 5, dizendo: “Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o Reino dos céus; bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados; bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra; bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos; bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia; bem-aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus; bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus; bem-aventurados os que sofrem perseguição devido à justiça, porque deles é o Reino dos céus; bem-aventurados sois vós quando vos injuriarem, e perseguirem, e, mentindo, disserem todo o mal contra vós, por minha causa. Exultai e alegrai-vos, porque é grande o vosso galardão nos céus; porque assim perseguiram os profetas que foram antes de vós.”
Cristo revela que, nada se encontra no mundo será eterno, mas antes, para ser eterno, deve estar em comunhão com o Pai.
O início da guerra entre os Devas e Titãs se dá na morte do Dragão, isto é, do Absoluto. Mas em última instância é óbvio que o Dragão jamais morreu. Entender isso é, a um só tempo, tornar-se o Dragão. Somente aquilo que nasce com a separação do Céu e da Terra e que, mesmo quando esses dois dispersam-se, não morre, é digno do nome Permanente. A Permanência não tem nenhuma distinção, e nenhuma delimitação. Dizer que o Infinito é aquilo que não tem limites faz parecer com que ele não é um feijão, já que o feijão tem limites. Constantemente faço muitos julgamentos: “céu é azul”, “a grama é verde”, “o sol é claro”… Mas olhando agora, com atenção plena, não consigo apontar um só juízo desses que seja aplicável a todas as coisas. Mais propriamente, não seriam esses mesmos juízos os culpados por separar e dividir todas as coisas? Ou eu estaria mentindo em dizer que as partes são potências em relação ao todo? Voltando-se a essa mesma reflexão: ela é ilusória, ta tudo errado: enquanto não digo “Śiva”, estou me enganando. Nenhum dos meus conhecimentos tem força suficiente para me guiar a qualquer lugar, nem mesmo a iluminação; por isso o Mestre Eckhardt dizia que “eu sou mais sábio do que Deus”. Das árvores, sou tagarela; da vontade, do bem, da justiça… Nada disso é eterno. Só é eterno aquele nome que não tem atributo algum, e do qual nada se pode dizer. Mas, em outro espectro, tudo é eterno.
- É por isso que encontramos o fundamento do Segundo Selo do Dharma no Primeiro. Todas as emoções são dor porque as boas emoções geram apego, e apego gera dor. ↩︎

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