“A Teologia Negativa de Lao Tzu” — Edward Feser

 Prólogo

O texto a seguir é uma tradução de um artigo escrito pelo Edward Feser, um filosófico tomista americano. O artigo explora a dimensão metafísica do 道德經 (PīnyīnDàodé Jīng), tradicionalmente atribuído a 老子 (PīnyīnLǎo Zǐ) ou 李耳 (Pīnyīn: Lǐ Ěr). A análise propõe uma leitura do Dào como um princípio supremo que transcende a toda determinação, com notáveis paralelos com a teologia negativa e o panenteísmo, aproximando-se de tradições tanto orientais quanto ocidentais. Embora adaptado ao estilo do português filosófico, nós optamos por cultivar certa fidelidade ao estilo original em inglês, respeitando suas nuances conceituais e argumentativas.

A Teologia Negativa de Lao Tzu 

Entre as coisas mais interessantes sobre o filósofo chinês Lao Tzu (século VI a.C.) é que, de fato, ele nunca existiu. Ou, ao menos, é o que alguns acadêmicos nos dizem. Eu, particularmente, sou cético quanto à sua inexistência, e, por isso, irei me referir a Lao Tzu como se fosse uma pessoa real. Em qualquer caso, a atribuição tanto da existência quanto da inexistência a Lao Tzu é estranhamente apropriada, dado que sua obra clássica, Tao Te Ching, afirma sobre a fonte última das coisas: “Todas as coisas do mundo vêm do Ser. E o Ser provém do Não-Ser.” Mas o que isso quer dizer?

Até um leitor casual de Tao Te Ching nota rapidamente seu apreço por formulações paradoxais. Elas têm uma função essencial; de fato, Lao Tzu não poderia dizer exatamente o que queria sem essas formulações. Mas é necessária uma breve contextualização para se compreender o que está em jogo.    O conceito central do Tao Te Ching é, naturalmente, o Tao. Literalmente, Tao significa “Caminho”, e a noção de “Caminho” como uma via moral é central para a ética e a filosofia política na tradição chinesa. Mas o Tao Te Ching eleva o Tao ao patamar de um princípio metafísico. A ideia é que, seguir o Tao — concebido como a via moral do sábio e do estadista prudente — tem a ver com espelhar — o Tao, entendido como o princípio metafísico supremo, ou a fonte de toda a realidade. (O Tao Te Ching, assim como a República de Platão, preocupa-se tanto com a metafísica quanto com a ética e a filosofia política e de fato, igual ao clássico de Platão, considera que suas conclusões morais e políticas decorrem de sua metafísica. Mas, na presente postagem, apenas manterei o foco no aspecto metafísico).    O Tao é a “origem do Céu e da Terra”, “a mãe de todas as coisas” (I,1) e “todas as coisas dependem dele para viver” (I,34). É “eterno” (I,32) e possui a “simplicidade” (I, 32 e 37) que é anterior à “diferenciação” que encontramos no mundo ao nosso redor (I,32). Escreve Lao Tzu:    “O Tao gerou o Um. O Um gerou o Dois. O Dois gerou o Três. E o Três gerou as dez mil coisas. As dez mil coisas contém o Yin e abraçam o Yang e, através da fusão das forças materiais (ch’i), alcançam a harmonia.”

Em outra passagem, o Tao parece ser identificado como “O Um”; é dito que o Céu, a Terra, os deuses, senhores, príncipes e criaturas, “são o que são graças ao Um” (II, 39, Tradução do Lau). Para resumir todos esses temas, o Tao Te Ching diz:

“Havia algo indiferenciado e, ainda assim, completo, na qual existe antes do Céu e da Terra. Silencioso e sem forma, não depende de nada e é imutável. Opera em todas a parte e está livre de qualquer tribulação. Pode ser considerada a Mãe do Universo. Eu não conheço o seu nome; Chamo-a de Tao. Se fosse obrigado a nomeá-la, eu a chamaria de Grande. (I, 25, Tradução Wing-Tsit Chan).

À primeira vista, isso soa como uma espécie de teísmo, embora Tao seja comumente entendido como impessoal, em vez de ser um pai ou uma mãe celeste literal. Em particular, isso remete ao teísmo Neoplatônico, que considera que todas as coisas diferenciadas e compostas derivam de uma causa primeira absolutamente simples, por meio de emanação. E até aqui, o que temos é uma doutrina filosófica (ainda que não acompanhada de argumentos explícitos, rigorosos e detalhados) em vez de uma presumida — equivalente a uma teologia natural.

Entretanto, nós ainda não tratamos do aspecto mais marcante desta teologia natura. É evidente desde o começo, nas famosas e marcantes primeiras linhas do Tao Te Ching: “O Tao que pode ser proclamado não é o eterno Tao; o nome que pode ser nomeado não é o nome eterno” (I, 1). Portanto, como a passagem prossegue, o Tao é ao mesmo tempo “inominável” e “nomeável”1.

Há aqui um paradoxo, mas não uma contradição. O que Lao Tzu quer nos dizer é que, embora o Tao possa, sim, ser nomeado ou descrito em certo sentido — afinal, esse é justamente o motivo de ele ter dito tudo o que ouvimos até agora! — o que está sendo dito, em última análise, não pode ser adequadamente captado pela linguagem. Isso porque o Tao é tão radicalmente distinto das coisas temporárias, mutáveis, diferenciadas e dependentes da nossa experiência. Nesse sentido, ele é inominável. O melhor que podemos fazer é sugerir maneiras pelas quais ele não se assemelha às coisas da nossa experiência — não é temporário, não é mutável, não é diferenciado, não é dependente, e assim por diante.

Em outros termos, o Tao Te Ching é, em parte, um exercício daquilo que, no Ocidente, seria conhecido como teologia negativa ou apofática. Esse tema percorre todo o livro. É nos contado que o Tao é “vazio” (I, 4) e “sem nome” (I, 32). É o “Invisível”, o “Inaudível”, o “Indefinível” e, sendo “infinito e sem limites, não pode receber nenhum nome” (I, 21). Embora sua “essência seja profundamente real”, ela é “profunda e obscura” (I, 21). No mundo de nossas experiências, nós encontramos a beleza e a feiura, a bondade e a maldade, o ser e o não-ser, a dificuldade e a facilidade, o longo e o curto, o alto e o baixo, o lado da frente e o de trás e assim por diante (I, 2); mas a implicação parece ser que o Tao transcende todas essas dualidades — e, por isso, “o sábio transmite ensinamentos sem usar palavras”.

Isto, eu sustento, é suficiente para esclarecer a famosa passagem já citada, segundo a qual “o Ser vem do Não-Ser.” O Tao não é semelhante a nenhuma coisa finita de nossa experiência — não é só mais uma coisa entre os entes que compõem o universo, não é um ser ao lado de todos os outros seres. Nesse sentido, ele é um tipo de “não-ser”; mas isso não significa que o Tao não exista. Afinal, Lao Tzu está afirmando a sua existência e nos revelando muito sobre seu respeito.

Em uma observação especialmente marcante, Lao Tzu nos conta que o Tao “parece existir antes de Deus” (I, 4). (Lau traduz este trecho da seguinte maneira: “É a imagem do antepassado de Deus”). Essa ideia lembra a noção proposta por Paul Tillich do ‘Deus acima de Deus‘ — a ideia de que Deus do teísmo clássico transcende excessivamente conceitos antropomórficas da divindade, que não se encontra apenas entre os fiéis sem instrução, mas até mesmo entre alguns teólogos e filósofos.

Qual é exatamente a relação entre o Tao e o mundo? O que nos foi dito até agora nos indica que ambos são profundamente distintos, tal como Deus e o mundo são concebidos no teísmo ocidental tradicional. Entretanto, nós também somos informados que o Tao é para o mundo o que o Rio e o Mar são para os riachos e córregos” (I, 32, tradução de Lau). Isso parece indicar que há uma continuidade entre o Tao e o mundo, assim como os rios e mares são contínuos com riachos e córregos. De fato, como observava Frederick Copleston em seu livro, Religião e o Um: Filosofias do Ocidente e do Oriente, o Tao Te Ching diz que o Tao se “move” ao “retornar” (II, 40). Copleston afirma que tudo isso “sugere que o Um é o universo, que segue um curso cíclico, produzindo a multiplicidade em um processo de autotransformação,  absorvendo-o em si e, então, reproduzindo-o mais uma vez” (p. 46).

Como isso é compatível com a ideia que o Tao é imutável, dado que o mundo sempre está em mudança? Copleston propõe que nós interpretemos o Tao Te Ching à luz da distinção feita, na filosofia chinesa posterior, entre substância e função. A substância do Tao, nessa interpretação, é o Tao considerado em si, — uno, eterno e imutável. A função do Tao é o Tao considerado em termos de sua manifestação no mundo de nossa experiência, múltiplo, temporal e mutável.

Isso não implica exatamente panteísmo, já que não há um colapso completo da distinção entre o Tao e o mundo. Mas a distinção é, sem dúvida, suficientemente atenuada para podermos falar de uma espécie de panenteísmo. Eu proponho que “panteísmo apofático” seja um título apropriado para o tipo de teologia natural proposto por Lao Tzu.

Notas

  1. NT: O metafísico islâmico Ibn Arabi (que Deus esteja satisfeito com ele) ensina que Deus se revela por meio de Seus Nomes, mas essa revelação não se resume aos próprios nomes. Os Nomes de Deus são, de fato, uma expressão de Sua essência divina, e ao nos referirmos a esses Nomes, estamos apenas utilizando apelidos para designar algo que transcende a linguagem. Esses Nomes, portanto, são distintos de outros nomes ou termos usados para descrever ou definir Deus, pois, enquanto podem receber diversas descrições e definições, os Nomes divinos permanecem únicos e incomparáveis. ↩︎

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